Burning boat, Oriel. Oxford 1984 (Dafydd Jones)
Strategic
Culture – 06/03/2024
Somos governados por
uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os
estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem
respondem.
Europeus, não se admirem
se um dia acordarmos ao som de notícias como “a guerra começou”.
Este prenúncio é tudo menos fantasioso e é para ser levado muito a
sério. Na minha ignorância, julgo mesmo que, na história humana,
após a segunda guerra mundial e considerando a experiência da
guerra fria, estaremos, talvez, no momento em que o risco de
confrontação militar é mais elevado. À falta de uma arquitectura
mundial unificadora, de democracias sólidas e de canais de
comunicação estáveis e credíveis… Tudo se torna possível.
No quadro de mais uma
adaptação da já secular doutrina estratégica “da espada e do
escudo”, enunciada, em 1917, pelo General Pershing, quando
explicava às suas tropas que não estavam, na Europa, para defender
os europeus, mas para defender os americanos, uma vez que os países
europeus constituem um escudo e os EUA a espada, ao longo dos últimos
30 anos, a casa branca foi construindo uma elite administrativa
aristocrática e aristocratizada, a qual responde, em primeiro lugar,
aos interesses da “espada” americana.
Em qualquer grupo
fechado, a sua coesão interna funda-se em sentimentos de pertença,
os quais, neste caso, residem nos valores da exclusividade,
individualidade (não é para quem quer) e inacessibilidade (é só
para quem pode) ao comum dos mortais. O grande objectivo, e sucesso,
da estratégia americana, reside na criação de um sentimento
segundo o qual, cada um dos membros do grupo, faz parte de uma
estrutura de eleição, à qual só aderem seres muito especiais.
Este sentimento é trabalhado a partir de variadas estratégias de
comunicação, sugestão e persuasão que visam criar uma identidade
de grupo, mesmo quando os respectivos membros partem de países,
realidades e áreas educacionais diversas.
Vejamos alguns casos
exemplificativos, mas também paradigmáticos. Emanuel Macron, passou
pelo Institute d’Etudes Politiques de Paris – IEP, o qual
constitui a chancela de confiança, a premissa, segundo a qual, o
sistema neoliberal passa a ver, em Macron, alguém preparado para a
administrar os seus interesses. Para além do caracter selecto com
que esta instituição privada, exclusiva, se apresenta, as
convenções que mantém com a Universidade de Columbia, em Nova
Iorque, e com a, sempre reputadíssima, London School of
Economics, ou o curso de mestrado em Inglês para jovens
promessas mundiais, representam uma poderosa contribuição deste
instituto para a causa monopolista neoliberal. É ali que se criam os
fundamentos ideológicos e os ensinamentos propagandísticos que,
mais tarde, são enraizados no discurso político.
Para quem tenha dúvidas
desta descrição que faço, nomes como Alain Juppé, Lionel Jospin,
Dominique de Villepin, Jacqes Chirac, François Hollande e François
Miterrand, todos passaram pela escola Sciences Po. do IED. Podemos
mesmo dizer que, estudar no selectíssimo IED é meio caminho andado
para o estrelato mundial e, mais importante ainda, para os afazeres
públicos de um dos motores da EU.
Contudo, esta
exclusividade não é restrita aos mais elevados representantes da
aristocracia ocidental. Mesmo os mais bárbaros e obscuros wannabes
são obrigados a apresentar um qualquer tipo de conexão. Tal é o
caso de Kaja Kallas, a primeira ministra da Estónia, que se
candidata a tudo o que dê tacho e pertence a todos as direcções
que a aceitem. Kallas passou pela necessária Estonian Business
School, pois as escolas de Business têm aqui um papel
fundamental no enquadramento ideológico do eleito, mas, entre muitas
outras coisas, Kallas pertence também à organização Global
Young Leaders, organização privada relacionada com
Universidades como Stanford, da Ivy League, destinando-se
essencialmente a formação STEM.
Profundamente ligada aos
programas de formação para jovens, seleccionados através das
estruturas americanas existentes dentro das universidades e escolas
de todo o mundo, aos “sortudos” eleitos dos seus programas, é
destinada toda uma panóplia de excepcionais insígnias como
“Innovative”, “Business” ou “Leadership”. Em programas
que vão desde as escolas do ensino básico à universidade, os
“estudantes” aprendem a movimentar-se, desde muito novos, nos
meios do poder, desenvolvendo competências ligadas à criação de
ONG’s, empresas, partidos, como intervir junto de governos, da ONU
e de outras estruturas.
Pense-se assim: numa
escola pública que propositadamente não forma os alunos para a vida
política, o que constitui um erro crasso em democracia, as mesmas
elites que o negam à generalidade da população, preparam os seus
rebentos para as sucederem de forma directa – qual monarquia
hereditária escondida – nos afazeres dos adultos. Como se costuma
dizer, em terra de cegos, quem tem olho é rei. E as elites
oligárquicas sabem-no melhor do que ninguém.
Outro caso é o de Rishi
Sunak, o Indiano que se sente mais americano que Inglês. O que não
admira. Em 2006, por exemplo, Sunak requentou um MBA da Universidade
de Stanford (quase omnipresente), como bolsista da “Fullbright”.
A “Fullbright” é mais um daqueles programas que desenvolve
cursos para supostos jovens brilhantes. Lá está, a exploração do
individualismo, do egocentrismo, do sentimento de exclusividade, como
pilares da construção de um sentimento de pertença, através de
reforço positivo enquanto ser excepcional. Todos se sentem
excepcionais. Daí a sua arrogância, o seu distanciamento.
Não admira, portanto que
a própria Ursula seja tão fervorosamente anti Russa e atlantista.
Como não poderia deixar de ser, entre 1992 e 1996 viveu em Stanford
(outra vez Stanford), na Califórnia, onde estudou economia. O
próprio Donald Tusk, da Polónia, fez parte de uma Associação de
Estudantes Independentes, criada em 1980, financiada pelos mesmos de
sempre, que visava subverter, a partir da academia o regime – à
data socialista – da Polónia. Mais tarde, foram os quadros desta
“associação” deveras “independente” que apoiaram, no
terreno, a organização da Revolução Laranja na Ucrânia. Ou seja,
o que vemos na Ucrânia, hoje, é o resultado de um amplo projecto de
separação e submissão da europa aos interesses neoliberais,
hegemónicos e imperiais dos EUA.
Este “escudo”
europeu, como podemos constatar, é construído por um grupo que
funciona quase como uma sociedade secreta, dotado de profunda coesão
interna, baseada no sentimento narcisista de eleição, exclusividade
e de pertença a um grupo de elite, treinado para liderar, formado
para administrar os interesses supranacionais do estado monopolista
por excelência, os EUA.
Agora, imaginem-se numa
estirpe de gente que, para além de muitos pertencerem às classes
mais abastadas ou à aristocracia política, ainda lhes inculcam,
através de inúmeros recursos institucionais ao dispor, a ideia de
que fazem parte de um grupo restrito, colocado acima do comum dos
mortais, destinado a decidir, por conta dos interesses monopolistas
que os contratam. Imaginem que, pertencendo a uma elite deste tipo, o
comum erro, que normalmente custa a careira, a honra e até a vida,
para esta gente não passa de um percalço na ascensão ao topo.
Colocados numa posição destas, como se comportariam? Com sentido de
responsabilidade? Ou com total sensação de impunidade? Se soubessem
que o vosso poder, estatuto e legitimidade emanavam de interesses
supranacionais, a quem seria natural demonstrarem a vossa lealdade?
Ao povo?
A forma como os EUA, e os
interesses monopolistas que compõem o seu sistema de poder,
subverteram qualquer ideia de autonomia estratégica à EU,
atirando-nos a todos para a uma linha da frente que, não visa
proteger os nossos interesses, mas os deles próprios, consistiu na
entrega da alta política, não aos mais experientes estadistas, aos
mais emergentes líderes de massas, ou aos mais capazes e competentes
quadros públicos, mas, ao invés, a uma estirpe espartana
socialmente isolada (apenas no modo de organização e não nos
costumes), composta por carreiristas, incapazes de distinguir entre
interesse público e privado, nacional ou internacional. Para tais
seres, os interesses da coisa pública confundem-se com os seus, e os
seus, com os dos seus patrocinadores. São uma e a mesma coisa, num
ciclo vicioso em que quem ganha e quem perde está, à partida,
determinado.
E, se a actuação deste
grupo privilegiado, elitista, segregacionista e exclusivista, em
matéria de economia europeia, tem os resultados à vista, também no
que concerne à política externa, os seus actos demonstram por conta
de que projecto as suas lealdades são expressadas. Victoria Nuland
veio à Europa exigir demonstração de apoio e recebeu-a sob a forma
de um Macron que, convocando todos os líderes europeus para o
Palácio do Eliseu, procurou discutir a possibilidade de enviar
tropas europeias da para a Ucrânia. Não fosse Robert Fico, que,
pelos vistos, não se revê neste selecto grupo de yuppies, e não
saberíamos que os líderes em quem é suposto os povos europeus
confiarem, discutem, entre si, à porta fechada e nas costas da mesma
democracia com que enchem a boca, algo como o rastilho que pode
incendiar uma terceira guerra mundial. Ou seja, discutem, entre si, a
utilização da europa como escudo da espada americana, com total
desprezo por quem dizem governar.
Coincidência ou não, é
também após a visita da incendiária Nuland, que todos tomámos
conhecimento de que três militares alemães de alta patente,
desejavam preparar um ataque à ponte sob o estreito de Kerch, usando
mísseis Taurus fornecidos pelo seu país. Entre todas as formas de
manifestação de lealdade, a mais hilariante só poderia vir de
Zelensky, quando este, qual Cristo ressuscitador de mortos, conseguiu
transformar as centenas de milhares de soldados, que ele próprio
enviou para a morte, em apenas 31 mil falecidos. Onde param então
mais de 500 mil soldados?
Dizem depois os incautos
que, no ocidente, faltam “estadistas”, o que repetem vezes sem
conta sem se dar conta do paradoxo. Para existirem “estadistas”
teriam de existir estados. Se, nesta nova construção geográfica
que é o “ocidente colectivo”, já não existe a figura do
estado-nação, mas, antes, territórios de interesse estratégico,
então, no quadro deste modo de organização, o que podemos esperar
daqui são missionários e enviados plenipotenciários que servem
sobretudo os interesses monopolistas da hegemonia americana. Uma
espécie de cônsules de um poder imperial supranacional.
Actualmente, qualquer leitura que façamos sobre a realidade política
vigente, tem de ter em conta que a europa, Japão, Coreia do Sul ou
Austrália passaram, não apenas constituem o “escudo” de defesa
dos EUA, mas também o seu “espaço vital”. Um espaço vital que,
agregado ao seu próprio, capacita os EUA para uma competição feroz
com o eixo Rússia, China e Irão, mais populoso, produtivo e
motivado. Já não se trata, apenas, de “manter a europa dentro”
ou a “Alemanha em baixo”, como era pretendido para a NATO,
trata-se, sobretudo, de fazer coincidir o território NATO com o
território vital dos EUA, o que levanta profundas questões sobre o
papel da União Europeia, num quadro deste tipo.
Assim, se a realidade que
analisamos não é composta por estados-nação, mas por um espaço
comum supranacional, liderado pelos EUA, esperar por “estadistas”
não é minimamente realista, pois ao “estadista” preocupa o
estado, enquanto organização colectiva que constitui a cúpula de
uma determinada existência sociopolítica. Interessa-lhe a nação,
o povo, a sua economia, as suas tradições e identidade. Será que
são estes valores que movem um Emanuel Macron, uma Ursula Von Der
Leyen ou um Donald Tusk? Nem a sua actuação e, muito menos, o seu
currículo, o indiciam.
Assim, a coberto da
impunidade que só um estatuto excepcional, mas sobretudo
supranacional, pode trazer, assistimos a uma discussão sobre a
oficialização da presença de forças europeias na Ucrânia,
nomeadamente as que estão afectas aos “estados” que andam a
celebrar, nas costas dos seus povos e sem discussão soberana,
acordos bilaterais de segurança, que os podem obrigar a entrar numa
guerra, tal como o Reino Unido inaugurou, como mundial, a segunda
guerra, por ter assinado um tratado bilateral de segurança com a
Polónia. Se este não é um assunto para ser discutido,
profundamente, em democracia, por um povo, então não sei o que será
mais importante! Casas de banho mistas? Casamento entre pessoas do
mesmo sexo? O retrocesso nas leis do aborto? Sem desprimor por essas
questões, claro!
Bem sabemos que, tal
discussão, neste preciso momento, resulta de mais uma manobra
contingente, que visa impedir aquilo que prometeram, desde o início,
nunca ser possível: a vitória russa! Nunca se retractando e
provando que a impunidade que sentem tem correspondência no poder
que os legitimam, a designada “comunicação social” dominante, a
tal que deveria informar, escrutinar, questionar, criticar, cala-se
bem caladinha e passa a dizer, hoje, o que veementemente, ontem,
negava. Como que a provar que, uns e outros, emanam de uma mesma
fonte de poder.
O facto é que, por este
caminho, amanhã, poderemos acordar com forças da NATO oficialmente
estacionadas, ao longo da fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e
Bielorússia e, a sul, na região de Odessa, procurando salvar a
ligação dos resquícios do país que antes existiu, ao mar negro. A
partir desse dia, Vladimir Putin, o ministro Shoigu ou Medvedev, já
não terão de fazer de conta de que não existem tropas da NATO às
portas da Rússia! Elas estarão lá, para todos verem. Nesse dia,
saberemos para que ainda servem as bandeiras nacionais dos
estados-membros da EU e da NATO. Servem apenas para mascarar a
presença da aliança junto do seu eleito inimigo, ou para transmitir
aos povos europeus, enganando-os, de que não será a NATO que lá
estará, mas sim, os seus estados. Afirmar a presença da NATO, por
um lado, e escondê-la, por outro.
Quando tal suceder,
confirmaremos, na prática, tudo o que disse anteriormente: somos
governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais,
que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses
centrais a quem respondem, e os conceitos de estado-nação, apenas,
para legitimar as acções que visam desenvolver, sob a sua capa.
E só assim será
possível adormecermos, uma certa noite, em paz, e, no dia seguinte,
acordarmos em guerra!
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